Educação Emocional: Entre a Prateleira e a Essencialidade
A
incorporação das competências socioemocionais no Brasil consolidou-se como
prioridade estratégica em março de 2014, durante o Fórum Internacional de
Políticas Públicas: Educar para as Competências do Século XXI. O evento,
realizado pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com o MEC e a OCDE,
impulsionou diretrizes globais para o setor no país, evidenciando a correlação
entre o desenvolvimento de competências socioemocionais e o desempenho
acadêmico como pilar para a renovação das políticas públicas nacionais.
Embora a
legitimidade das demandas ligadas às emoções na escola seja inegável, esse
movimento gerou um mercado diversificado de "entregas educacionais",
resultando em métodos e apostilas que frequentemente ocupam as prateleiras
escolares de acordo com o perfil de cada clientela. Esse cenário desperta
críticas sobre a densidade conceitual de tais programas. O alerta reside -
dentre muitas questões - na ausência de uma visão crítica a respeito da relação
entre as emoções e os contextos sociais em que crianças e professores estão
inseridos.
É
fundamental avaliar com cautela as "soluções socioemocionais" que
operam apenas como ferramentas de ajuste e padronização comportamentais,
visando à formação de um indivíduo produtivo em conformidade com um sistema que
prioriza resultados em detrimento da capacidade reflexiva.
Em
contraponto a essa "pedagogia de prateleira", surge o convite às
essencialidades: uma educação emocional voltada ao pertencimento e ao coletivo.
Em "Ideias para adiar o fim do mundo" (2019, p. 32), Ailton Krenak
utiliza a analogia de uma "queda livre" para descrever as crises
ambientais, sociais e políticas do tempo presente. Ele sugere que utilizemos
nossa potência criativa para construir "paraquedas coloridos" como
dispositivos de sustentação. Sob essa perspectiva, a pedagogia das
essencialidades inspira pontes que potencializam a relação integrada entre
natureza e humanidade, corpo e emoção.
Corroborando
essa ideia, o relato do escritor e brincante Roque Antônio Soares (Roquinho),
em sua obra "Brincar: Pedagogia das Essencialidades" (2024, p. 130),
oferece uma imagem poderosa. Ao descrever suas vivências no Norte do país, ele
narra o clamor das crianças em canoas que pediam ao barco grande para
"pegar as ondinhas" geradas pelo seu deslocamento. Ao ser questionado
por Roquinho sobre o desvio deliberado da rota para atender aos pequenos, o
capitão respondeu: "Sim, estou desviando a rota para fazer ondas. Fui
criança nessas barrancas (...). As crianças só podem vir até um ponto; se o
capitão não atender ao chamado, elas não pegam as ondinhas". Em sua
memória afetiva, o líder da embarcação compreendia na alma a razão para mudar o
rumo em favor de atender a um pedido da infância.
Este
relato sintetiza a potência do afeto como território epistemológico. Enquanto
as competências socioemocionais "de prateleira" operam frequentemente
como mecanismos de controle e produtividade, a educação das essencialidades
permite sonhar - não no sentido onírico, mas na busca prática por pilares que
transcendem conceitos abstratos. É um convite a um mergulho onde a empatia se
traduz em ações coletivas e concretas.
Como cofundadora do programa de educação emocional AME - Educação e Afeto, reconheço as tramas complexas que envolvem essa discussão: o risco da mercantilização, a urgência legítima das escolas e a pressão por resultados. Contudo, acredito ser possível construir nossos "paraquedas coloridos", tecendo uma educação emocional que nasce do chão da escola, escuta os corpos que a habitam e se recusa a reduzir afetos a protocolos. Tanto quanto refletir, é preciso atuar com a alma de quem, como o capitão da história de Roquinho, sabe quando desviar a rota para que a infância possa, enfim, "pegar as ondinhas".
Marília Bandeira, professora, cofundadora da AME - Educação e Afeto. Bacharel e Licenciada em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Especialista em Ensino de Música e em Emoções na Escola.
